No improviso das cores

11/2001
Fabio Cypriano, 22/11/2001
Folha de São Paulo

Apesar de não tocar nenhuns intrumento musical 'artista plástica Teresa Viana faz improvisações de jazz. Só que, em vez de sonoras, são visuais. ''É como se as cores com as quais trabalho fossem notas musicais. Em meu processo de criação, busco um movimento entre elas, como se estivesse compondo um jazz", conta a artista, durante a montagem de sua exposição.

As 14 telas que Viana apresenta, a partir de hoje, na galeria Baró Senna, remetem de fato a uma certa musicalidade. As cores, elementos básicas de suas obras, são materializadas de forma a criar intensidades variadas e livres, como no jazz.

No entanto quem observar atentamente essas telas de forma cronológica, das mais antigas para as recentes, vai perceber que não são só sonoras as evocações provocadas. Afinal de contas, falamos de artes viuais. A matéria-prima, tintas desenvolvidas especialmente pela artista, ganham volume e vão se distanciando da tela. Em alguns casos, mais de cinco centímetros, que dão a impressão de compor paisagens imaginárias.

"De fato, a questão do volume começou a me interessar muito, é como se buscasse chegar com a tinta até meus olhos", afirma.

Todo o conjunto na mostra foi realizado em menos de dois meses, graças a uma bolsa de pesquisa da fundação norte-americana Pollock-Krasner. ''É ótimo poder ter dedicação exclusiva. Ganhei a bolsa em julho e fui para Nova York em agosto. Quando voltei, pintei sem parar, conspulsivamente", diz.

Em Nova York, Viana nitriu-se dos clássicos da história da pintura nos museus da cidade. "Estudei os modernos, pois eles tinham uma pesquisa sobre o olhar que hoje não é mais feita, tudo é mediado pela mídia. Busco seguir essa forma direta de direcionar o olhar", esplica.

A relação da obra de Viana com pintores modernos já foi analisada pelo crítico Tadeu Chiarelli, ''A cor [nas tetas de Viana] nos remete a um Monet deslumbrado pela cor tropical, enquanto as camadas espessas de tinta aludem a uma pintura brutalista repentinamente rediviva. Suas obras parecem caminhar por uma corda bamba, estabelecendo uma concomitância precária entre aquelas duas tendências tão excludentes", escreveu Chiarelli no livro ''Arte Internacional Brasileira".

O lirismo da obra de Viana só é quebrado peo forte cheiro de terebintina que as telas soltam. "É a intensidade do frescor'', justifica Teresa Viana.